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domingo, 11 de março de 2012

Reflexão do 3º Domingo da Quaresma

* Adilson Silva
Caros irmãos e irmãs, estamos no 3º Domingo da Quaresma e a liturgia de hoje nos convida a refletir acerca dos valores sobre os quais está pautada a nossa pratica religiosa. Enquanto, na primeira leitura, Deus estabelece uma aliança de amor com o seu povo eleito, através do decálogo, o evangelho mostra Jesus expulsando as pessoas que empreendem uma relação de interesses econômicos com Deus e a religião. Deste modo, a Palavra de Deus questiona-nos, hoje, acerca de como estamos vivenciando a nossa fé: será que, na Igreja, estou buscando realizar, na minha vida, os desígnios do Senhor porque compreendo que a proposta do evangelho é caminho de felicidade, ou, através de minhas orações, busco receber de Deus as suas graças e seus milagres em minha vida sem nenhum comprometimento com sua Palavra?

Na primeira leitura de hoje, tirada do livro do Êxodo (20, 1-17) vemos, nos v. 5 e 6, o amor misericordioso de nosso Deus cujo castigo é, infinitamente, desproporcional à sua recompensa para com aqueles que Lhe são fiéis. A partir deste princípio, Deus estabelece uma Aliança de amor com seu povo eleito através dos dez mandamentos. Vejam, meus irmãos e irmãs, as prescrições do decálogo não são um conjunto de regras rígidas que visam reprimir as ações humanas de forma hostil, usurpando ao homem a liberdade de comportamento. Não. Pelo contrário, Deus apresenta ao seu povo um caminho para se encontrar a verdadeira felicidade e a forma para se usar, mais autenticamente, a liberdade. Com efeito, a nossa verdadeira felicidade consiste em fazer a vontade de Deus, pois quem peca não é livre, uma vez que se torna escravo do pecado (Jo 8,34).

Caríssimos, vejamos como essa palavra é atualíssima, quantas pessoas, deliberadamente, optam por não participar da Igreja porque pensam que Deus quer lhes tirar a juventude, a liberdade e/ou a felicidade. Veem os mandamentos de Deus de forma negativa e pessimista e, assim, preferem viver segundo as suas paixões, satisfazendo todos os seus desejos e instintos. Muitas dessas pessoas identificam prazer com felicidade, deste modo, vivem procurando os prazeres efêmeros do mundo, mas não conseguem alcançar a paz interior. Deus é Pai e conhece nossos anseios mais profundos, sabe da nossa sede de felicidade e de sentido de vida, por isso, por mais dolorosa e exigente que seja, a nossa felicidade consiste em fazer a vontade Deus e não em realizar os nossos caprichos.
Outro aspecto importante da liturgia deste Domingo é que nos é apresentado por Jesus no evangelho. Enquanto tem pessoas que preferem não se aproximar de Deus com medo que Ele lhe tire algo, existem outras que se aproveitam das coisas de Deus com fins econômicos e, estritamente, individualista. Vejam só, Jesus expulsa, hostilmente, as pessoas que vendiam animais para serem sacrificados no próprio Templo, e tudo isso era feito com o consentimento dos doutores da Lei, os quais deveriam ser os primeiros por zelar pelo Templo – lugar onde Deus habita. Por isso, os discípulos lembram-se do salmista: “O zelo por tua casa me consome, Senhor.”

Aqui mais do que inibir o comércio de animais na “Casa do Senhor”, Jesus quer chamar a nossa atenção para o fato de que, agora, os animais não são mais necessários para o culto, pois Jesus Cristo é o novo Templo e o sacrifício é feito n’Ele mesmo; Ele é, de fato, sacerdote (que realiza o sacrifício) altar (onde o sacrifício é realizado) e cordeiro (Ele mesmo é imolado por nós). Que beleza, irmãos é a liturgia deste Domingo para nós. O Senhor trás um novo sentido para o culto no Templo, o sacrifício de animais já passou, agora é “POR CRISTO, COM CRISTO E EM CRISTO” que as nossas preces são elevadas a Deus.
Resta-nos, então, a reflexão: de que forma é pautada a nossa relação com Deus? Queremos abraçar a redenção trazida por Cristo, com tudo aquilo que ela implica, ou seja, a renúncia de nós mesmos, de nossa vontade para fazer a vontade de Deus? Ou, buscamos através de nossas praticas religiosas, alcançar as graças e benefícios de Deus, sem nenhum comprometimento com a sua Palavra?
* Adilson Silva - seminarista de nossa Arquidiocese, oriundo de nossa Comunidade

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Reflexão do VIIº Domingo Comum - Ano B

* Por Adilson Silva
Caríssimos irmãos e irmãs, ainda uma vez, a liturgia nos convida a espalharmos a esperança que vem de Deus sobre a terra, ou seja, “evangelizar”. Somos convocados por Deus a sermos colaboradores na construção do seu projeto de amor e salvação para todos. No evangelho de hoje, as pessoas levam um paralítico até Jesus, sem a ajuda daquelas pessoas o paralítico não faria uma experiência com Jesus, tampouco, teria os seus pecados perdoados. Escutemos o convite suave que o Senhor todos os dias faz em nosso coração e coloquemo-nos, com generosidade de alma, a serviço do seu projeto de paz e amor para todos.
A primeira leitura de hoje é retirado do livro do Profeta Isaías [Isaías 43, 18-19.21-22.24b-25] antes de entrarmos na reflexão sobre a leitura de hoje, vejamos, brevemente, o que era uma profeta no Primeiro Testamento. O período em que existiram os profetas é chamado de “Profetismo”. O Profetismo significa uma irrupção de Deus na terra, uma entrada violenta de Deus na história da humanidade. O Profeta é uma vocacionado de Deus, este é convocado por Deus para anunciar a sua Palavra, portanto, o Profeta não possui uma palavra sua, mas ele é o porta-voz de Deus. A PALAVRA em Hebraico (no sentido bíblico) não possui o significado apenas de som como a compreendemos hoje, antes, ela significa um acontecimento, é algo concreto que de fato se realiza.
Sendo assim, o Profetismo significa dizer que Deus age no mundo, Deus se faz presente, atua e conduz a história do seu povo. Deste modo, é contrário ao ateísmo, o qual afirma que Deus não existe, portanto, não interfere na vida dos seres humanos, então, não há motivos para se ter esperança e não existe em quem esperar. Vejam, irmãos caríssimos, é neste contexto que a “Palavra” de Deus, através da boca do profeta Isaías, é dirigida ao seu povo que se encontra no exílio da Babilônia. Alí, o povo de Israel longe de sua pátria, desesperançado, desiludido, entregue ao pecado, sem razões para terem esperança. É, então, que a Palavra lhe é dirigida: Eu vou realizar uma coisa nova. Não o vedes? Obrigaste-me a suportar os vossos pecados… Mas Eu não mais recordarei as vossas faltas. Deus mesmo cuida de perdoar as nossas faltas, porque nos ama e não se lembra mais delas.

Deste modo, Jesus veio para perdoar nossos pecados. Amados, na próxima semana começa a Quaresma e a liturgia deste Domingo chama a nossa atenção para a necessidade da confissão. A Quaresma é justamente este tempo de nos voltarmos para o coração de Deus, buscando, através do sacramento da confissão, a reconciliação com o Senhor. Nós sabemos que, no sacramento da penitência, não é o padre que perdoa os nossos pecados, mas sim, o próprio Deus. Sendo assim, o padre é apenas um instrumento que absolve as nossas faltas e as apresenta ao Senhor que se digna perdoá-las. Portanto, todo cristão católico deve procurar o sacramento da penitência, sobretudo neste tempo quaresmal.

No evangelho de hoje [São Marcos 2, 1-12], Jesus vê, claramente, que a maior necessidade daquele paralítico não é a cura física, e sim, a espiritual. Irmãos, precisamos renovar, em nossos corações, a consciência de que a nossa existência, aqui na terra, é uma realidade efêmera, passageira, e que existe após esta nossa passagem neste mundo, outra vida mais plena, onde não haverá mais sofrimento, nem dor; onde o Senhor enxugará todas as nossas lágrimas, e assim, Ele será tudo em todos. O Senhor Jesus quer curar o homem por inteiro, por isso, primeiro perdoa os pecados, com efeito, de que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro se vier a perder a sua alma. Por isso, a primeira preocupação de nosso Senhor é com a nossa vida espiritual. Deste modo, nossas doenças e enfermidades podem ajudar a nos purificar, a fim de que possamos nos voltar para Deus e colocar n‘Ele toda nossa esperança.
Cristo não veio para solucionar todos os problemas do mundo, tampouco veio curar todas as doenças. Se a cura da nossa doença, contribuir para a nossa salvação, então, o Senhor pode concedê-la, do contrário, porém, meu irmão, minha irmã, talvez, a sua doença seja o caminho através do qual o Senhor quer te salvar. O importante é permanecermos com Deus. Por conseguinte, vimos que o paralítico foi levado até Jesus carregado por várias pessoas, se aqueles homens não carregassem o paralítico, ele não se encontraria com o Senhor e, portanto, não seria curado e perdoado. Do mesmo modo, hoje, amados, muitas pessoas precisam de você para se encontrarem com Deus. Talvez, muitas pessoas não se encontrem nunca com Deus se não forem levadas por você. Somos vocacionados do Pai, somos convocados por Deus e colaboradores no seu projeto de salvação. Existem coisas que Deus confia a você e mais ninguém pode fazer em seu lugar.

Existe uma urgência de conversão e uma necessidade de evangelização. E essa se dá de forma muito simples, com seu jeito, com suas experiências e formações, você pode alcançar muitas pessoas para Deus. Para evangelizar não precisa ser um grande pregador, ou um grande místico, não. Com sua pobreza e sua miséria, Deus pode e quer fazer grandes coisas na vida das pessoas. Com nos diz São Paulo: “É na fraqueza que sou forte, pois o poder de Deus se manifesta em mim”. E na leitura de hoje o Apóstolo nos afirma: Quem nos confirma em Cristo a nós e a vós é Deus. Foi Ele que nos concedeu a unção, nos marcou com o seu sinal e imprimiu em nossos corações o penhor do Espírito. Com efeito, o Senhor não escolhe os capacitados, mas capacita aqueles que escolhe, e isto faz toda a diferença. Recobremos o ânimo, irmãos, eis que Deus quer realizar coisas novas em nossas vidas e elas já começaram a brotar, será que nós não vemos? Peçamos a Ele, então, que abra nossos olhos, a fim de contemplarmos a sua ação extraordinária em nossas vidas. Que assim seja. Amém!
* Adilson Silva é seminarista da Arquidocese de Salvador, oriundo de nossa comunidade.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Reflexão do Vº Domingo Comum - Ano B

*Por Adilson Silva
Amados irmãos e irmãs, a nossa condição humana, na terra, comporta, em si mesma, um grande mistério. Dentro deste, encontram-se muitos outros mistérios como o que nos é apresentado, hoje, através do livro de Jó: o do sofrimento. Na liturgia deste Domingo, o drama do sofrimento é mostrado por Jó paralelo à salvação gratuita que Jesus traz para todos. Com efeito, o tema do sofrimento levanta para nós um grande paradoxo: afinal, se Deus é amor e fomos feitos a sua imagem e semelhança, então, por que tanto sofrimento na terra? Deus é o autor do sofrimento? Na nossa vida, existe mais alegria ou tristezas? Certamente, em algum momento, já nos ocorreram estas questões. A resposta para essas interpelações encontram-se na vida e ação de Jesus que nos revela a verdadeira face Deus.

Primeira Leitura: (Jó 7,1-4.6-7) O livro de Jó é a literatura do Primeiro Testamento que reflete, de forma belíssima e profunda, o tema do sofrimento humano. Mais do que tratar do tema do sofrimento, o autor discute o que está por traz dele: a natureza da relação do homem com Deus. Recordemos que, no livro Jó, o que está presente é uma tradição que defendia o dogma da retribuição, ou seja, Deus retribui o mal com o mal e o bem com o bem. Deste modo, se alguém está sofrendo é porque cometeu algum mal em sua vida. Jó, inconformado com a visão de seus contemporâneos, busca aprofundar o sentido do seu sofrimento junto a Deus, uma vez que não ver nenhum mal em sua vida que justifica o fato de estar passando por tamanho sofrimento. Assim, ele aceita, com resignação, vontade divina que lhe permite passar por determinado constrangimentos, confiando na misericórdia de Deus.
Caríssimos, para nós cristãos, o sofrimento é o caminho, através do qual, o Senhor quer nos levar a salvação. O mundo pós-moderno possui uma ojeriza ao sofrimento, por isso vemos uma busca exacerbada pelo prazer. Existe uma tendência de se identificar o prazer, ou bem estar psicológico com felicidade: nem sempre sentir prazer significa que estamos felizes; por exemplo, a bebida produz prazer, as drogas produzem um momento de satisfação, fazer compras, em lojas, produz um bem estar psicológico, também o pecado é prazeroso (do contrário, não o praticaríamos), mas será que isso é felicidade? O sentido do sofrimento está dentro do desígnio de Deus. Jesus veio nos mostrar que, mesmo no sofrimento, podemos encontrar a felicidade, pois esta consiste em fazermos a vontade de Deus. O exemplo é-nos dado pelo próprio Cristo que mesmo na cruz estava feliz, pois cumpria plenamente a vontade de Deus.
Segunda Leitura: (1Cor 9, 16-19.22-23) São Paulo compreende que somente Deus é a verdadeira solução para nossos problemas e sofrimentos, por isso faz do anúncio do Evangelho de Jesus Cristo não motivo de vanglória, mas um projeto de vida. O Apóstolo deixa para nós um grande exemplo no exercício do serviço ao Reino de Deus. Através de sua profunda experiência com Cristo, percebe a beleza e importância de um ministério exercido a partir da liberdade e gratuidade do coração. Ele não busca reconhecimentos, nem gratificações, abri mão até mesmo daquilo que lhe é de direito, tudo isso para que, através de seu desprendimento e despojamento, pudesse alcançar mais pessoas para Deus.
O testemunho de São Paulo leva-nos a refletir: como é nosso serviço na comunidade? O que buscamos quando servimos a Deus, agradar ao Senhor, ou alimentar o nosso ego e nossa vaidade? “De graça recebemos, de graça devemos dar”, essa deve ser a nossa motivação. Como é caro esse tema para nossa reflexão, uma vez que a tentação do reconhecimento, de ser melhor, de ser maior que os outros estão muito perto de nós. Irmãos, sigamos o exemplo dos santos que buscaram, na humildade de coração, se desprender de todas as satisfações reconhecimentos humanos, para, assim, encontrar o reconhecimento e a consolação do próprio Deus. Peçamos ao Senhor que nos ajude a compreender que, na generosidade de nosso serviço, está a nossa própria recompensa, e, assim, no final de tudo, possamos dizer como Jesus ensina «somos servos inúteis: fizemos apenas o que devíamos fazer» (Lc 17, 10).

Evangelho (Mt 8,17). A sogra de Simão é símbolo da humanidade doente e Jesus é aquele que vem em socorro de nossas enfermidades, que vem curar as nossas doenças. Assim, Jesus vem trazer um novo sentido para a vida das pessoas que padecem na desesperança de seus sofrimentos. Todos procuram Jesus, pois acreditam que Ele é capaz de dar um novo rumo a nossa existência. Com Jesus, podemos enfrentar a realidade de nossa vida tal como ela se nos apresenta, não precisamos colocar máscaras. Na nossa sociedade, somos forçados a usar máscaras para sermos aceitos. Uma sociedade que cultua o corpo, que estabelece padrões de beleza a serem seguidos, valoriza muito mais o “ter” do que o “ser”, aqueles que não se enquadram em determinados parâmetros de beleza estão excluídos. Daí advém as inúmeras formas de preconceitos que, cada vez mais, se cristalizam na sociedade.
Com Jesus, não precisamos de máscaras, não precisamos mostrar ser aquilo que não somos. Ele nos acolhe, nos ama com somos, não precisamos ser super-homens ou supermulheres, Cristo veio, justamente, para nós que somos carentes, que temos defeitos e que, muitas vezes, sucumbimos pela opressão de uma vida vazia e sem sentido. Abramo-nos, pois, irmãos e irmãs, para essa novidade que é Cristo, Ele de fato é essa “Boa Nova” – a Boa Notícia que nos tira da solidão e nos devolve a verdadeira alegria, outrora, ferida pelo pecado, de sermos filhos e filhas de Deus.
*Adilson Silva é seminarista da Arquidiocese de Salvador, oriundo de nossa comunidade.

domingo, 29 de janeiro de 2012

CELEBRAÇÃO DO QUARTO DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO B

Por Adilson Silva (Seminarista) durante a celebração em nossa comunidade
Caríssimos irmãos e irmãs, estamos no quarto Domingo do Tempo Comum e vislumbramos o início da vida pública e das pregações de Jesus. No evangelho de hoje, Marcos apresenta Jesus como aquele que tem autoridade e sua autoridade é confirmada através de suas práticas, ou seja, sua palavra é sucedida por uma ação. Ele ordena e o espírito impuro sai do homem de forma violenta. Pois bem, antes de entrarmos na reflexão sobre o evangelho, vejamos o que as primeiras leituras tem para nos dizer hoje.
A primeira leitura, retirada do livro do Deuteronômio, apresenta-nos Moisés como sendo um modelo de profeta, por conta de sua proximidade com Deus.Deste modo, ele é considerado aquele que falava com Deus face-a-face. Na verdade, “ninguém jamais viu a Deus” como nos diz o evangelho segundo São João 1, 18, quando o texto diz que Moisés falava com Deus face-a-face, refere-se à intimidade espiritual com a qual ele se relacionava com Deus o que lhe conferia a capacidade e autoridade necessárias para bem conduzir o seu povo.
Moisés foi um profeta muito importante na história do povo de Israel, por isso foi o primeiro e modelo de todos os profetas. Perto de sua morte, Deus promete ao povo que enviará um novo profeta a altura de Moisés, a fim de continuar governado e dirigindo o povo para o caminho de Deus. Isso mostra o cuidado e o carinho do Senhor para com seu povo, mediante a morte iminente de Moisés, Deus não irá abandonar seu povo ao vazio do deserto, mas continuará cuidado para que todos permaneçam firmes no caminho rumo à Terra Prometida. Este é um sinal visível da bondade e providência divina que não nos abandona mesmo nos momentos mais difíceis de nossa vida.
A segunda leitura retirada da Carta aos Coríntios, apresenta-nos São Paulo chamando a atenção de sua comunidade acerca da importância da virgindade e castidade orientadas para o Reino de Deus. Numa primeira leitura deste texto, podemos incorrer no erro de pensar que São Paulo aqui está sendo contra ao casamento e ao matrimônio, no entanto, não é essa a intenção do Apóstolo. Para compreendermos melhor está passagem, precisamos nos voltar ao contexto em que vivia a comunidade de Corinto naquele tempo. Em sua época, as pessoas não davam nenhum valor à virgindade e ao celibato de um modo geral, pelo contrário, havia uma aversão a estas práticas – o que não é muito diferente de nosso tempo.
Mediante esta realidade, o Apóstolo quer ressaltar e resgatar a importância e a beleza de uma vida, totalmente, doada por amor a Cristo e a serviço de seu Reino. Assim como no tempo do Apóstolo Paulo, hoje, também nós, vivemos em uma sociedade que não reconhece, não compreende e nem valoriza a importância da virgindade e do celibato. Por isso é que vemos a proliferação da promiscuidade, garotas adolescentes que engravidam muito cedo, com 14, 13 anos de idade. Meninas que deveriam estar na escola estudando e vivendo aquilo que é próprio de seu tempo e de sua idade, possuem sua inocência maculada, precocemente, tendo que assumir posturas e responsabilidades antes do tempo, pelo fato de se tornarem mãe imaturamente. Que valor possui a virgindade hoje? Quem hoje observa a orientação da Igreja para que se tenha relação sexual apenas após o matrimônio? Pois bem, meus irmãos e irmãs, o mais grave dessa situação não é o fato de nossa sociedade não observar essas orientações, e sim, o fato de nós católicos sermos os primeiros a não as observar.
Muitos de nós somos a favor de que o padre case e tenha família, muitos de nós somos a favor da união homo afetiva, e assim por diante. Deste modo, nós percebemos que o principal problema da Igreja está dentro dela e não fora, isto porque a mentalidade do mundo está dentro de nós. O mundo nunca vai compreender o fato de uma pessoa renunciar aos prazeres mundanos para se consagrar,inteiramente,a Deus. Com efeito, diz Jesus no evangelho segundo São Mateus 19, 12 “Há eunucos que se fizeram eunucos por causa do Reino dos Céus. Quem tiver capacidade para compreender, compreenda!” Somente quem faz uma profunda experiência do amor de Deus, em sua vida, é capaz de viver tal realidade. Somente quem descobriu, em Jesus Cristo, o único e verdadeiro sentido de sua existência pode doar-se, inteiramente, por amor. Essa é uma atitude radical.
São Paulo mesmo fez essa experiência em sua vida. Como ele mesmo nos diz que depois que encontrou a Cristo considera tudo como lixo, comparado a Cristo e a seu evangelho. Ele se torna celibatário por opção, consagra-se, inteiramente, a CRISTO e a sua Igreja.São Paulo não impõe a ninguém o celibato, até porque nem todos são chamados a este estado de vida. Sabemos que existem casais quem vivem muito mais a santidade do que alguns celibatários. O texto ressalta o fato de que quem é casado precisa dividir-se para dar atenção a sua família e a Deus, ao passo que quem é solteiro pode dedicar-se, inteiramente, ao serviço de Deus. O Apóstolo reconhece a importância do matrimônio de modo a elevar a união entre o homem e a mulher à dignidade da união entre Cristo e a sua Igreja (cf. 2 Cor 11, 2; Ef 5, 21-33).
*Celibato (do latim cælibatus que significa "não casado") hoje refere-se a pessoa que renuncia a ter relações sexuais, consagrando-se, inteiramente, a Cristo e à sua Igreja. *Eunuco – pessoa que não pode ter relação sexual pelo fato de ser castrada.
Chegamos então ao evangelho, que tem como tema a autoridade de Jesus. As pessoas se admiram com o ensinamento de Jesus porque Ele fala como quem tem autoridade, diferente dos escribas que apenas faziam repetir formulas prontas que decoravam, mas sem comprometer-se com aquilo que diziam. O que Significa ter autoridade? Primeiro lugar, Jesus tem autoridade porque ele vive o que diz e a sua palavra se concretiza. O ensinamento de Cristo é confirmado pela sua ação concreta: expulsa o demônio. Quem conferiu esta autoridade a Jesus? Sua autoridade, sobretudo, é fruto de sua relação direta com o Pai, Ele é, ainda, maior que Moisés porque Ele sim viu o Pai face-a-face. Jesus, de fato, foi o único que viu a Deus, pois Ele veio de Deus.
Deste modo, Jesus veio para expulsar os demônios de nossa vida, quer derrubar todas as armadilhas de satanás que nos aprisionam no pecado, que nos escravizam e não permitem que vivamos a liberdade dos filhos de Deus. Quando queremos seguir Jesus é isto que o demônio faz: “agita-nos violentamente”, ou seja, o inimigo não quer que vivamos bem, não quer nos ver em paz, não quer que os jovens guardem a pureza da castidade, não quer que os casais vivam, na fidelidade, o matrimônio. Não. Ele não quer nada disso, por isso que quem busca levar uma vida santa e íntegra diante de Deus passa por uma grande luta. Tem pessoas que não acreditam na existência do inimigo de Deus e de sua influência em nossas vidas. E é isso mesmo que ele quer, que não acreditemos em sua existência, assim não teremos que lutar contra ele. Não precisaremos rezar, nem ir a Igreja e assim por diante. São Paulo nos diz: “Nosso combate não é contra o sangue nem contra a carne... Mas contra os espíritos do Mal” (Ef 6, 12).
Irmãos caríssimos, voltemo-nos para CRISTO com toda confiança e esperança em seu amor.
“Senhor, Tu és a nossa luz e a nossa única salvação, em Ti eu ponho toda a minha confiança e esperança. Retira-me, Senhor, do meu comodismo, da minha apatia, da minha frieza espiritual, da minha falta de fé. Daí-me, Jesus, um espírito renovado, um coração novo, um novo ardor missionário, que eu seja capaz de Ti amar acima de todas as coisas. Não permitais, ó Pai Santo, que eu seja contaminado pelas falsas doutrinas e falsas ideologias que a sociedade atual dissemina em nosso mundo e que me afastam e me impedem de viver conforme a sua vontade. Senhor, que Tu sejas tudo, tudo, tudo em minha vida e que eu possa viver de forma agradável aos teus olhos.”Rezemos, juntos, a oração exorcista de São Bento: “A Cruz sagrada seja a minha luz, não seja o dragão o meu guia, não me aconselhes coisas vãs, retira-te satanás, é mau o que me ofereces, bebe tu mesmo do teu próprio veneno. Amém!”
Adilson Silva – Seminarista da Arquidiocese de São Salvador, oriundo de nossa comunidade.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Epifania do Senhor

A Festa que a Igreja celebra, tem o nome de Epifania, isto é, aparição do Senhor, por apresentar-nos três grandes mistérios, em que Jesus Cristo se manifestou ao mundo como Filho de Deus e Salvador do gênero humano. O primeiro destes mistérios é a adoração que os três Magos prestaram ao Menino, em Belém. O segundo é o Batismo de Jesus Cristo no Jordão, ocasião em que o Pai celeste fez a apresentação de seu Filho, dizendo: “Este é meu Filho muito amado, em quem pus minha complacência” . O terceiro, finalmente, é a transformação da água em vinho, milagre que Cristo fez, por ocasião das bodas de Caná, para manifestar aos discípulos sua missão messiânica.

Logo após seu nascimento no estábulo de Belém, Jesus Cristo quis manifestar-se aos judeus e aos pagãos. Aos pastores, que estavam nos campos vigiando os seus rebanhos, mandou celeste mensagem, por intermédio dos Anjos, que lhes anunciaram o grande acontecimento, dizendo: “Não temais; anuncio-vos uma boa nova, que há de ser para todo o povo motivo de grande alegria! Hoje na cidade de Davi, nasceu o Salvador, que é o Cristo, nosso Senhor”. (Lc. 2, 10). Aos pagãos do Oriente mandou a estrela maravilhosa, a anunciar-lhes o aparecimento daquela estrela profetizada por Balaam, nas palavras: “Uma estrela sai de Jacó, um cetro levanta-se de Israel, que esmagará os príncipes de Moab”.

Os pagãos bem conheciam esta profecia, e ansiosos esperavam pelo aparecimento da estrela preconizada. Afinal a viram surgir. Sobressaindo entre as outras, pelo brilho e a posição extraordinários, chamou a atenção de três homens, conhecidos por Gaspar, Melquior e Baltazar ou, como a Bíblia os intitula, os três Magos do Oriente. Iluminados por luz divina, conheceram no aparecimento da estrela o sinal indubitável do cumprimento da palavra profética de Balaam, e sem demora trataram dos preparos da viagem, que os levassem à presença do rei dos Judeus recém-nascido. A estrela servia-lhes de guia. Seguindo-a sem desfalecimento, chegaram a Jerusalém. Pela primeira vez, ao chegarem à capital de Judá, o astro maravilhoso se lhes escondeu das vistas, e grande foi a tristeza e não menor o desapontamento do Magos.
Na convicção, porém, de tratar-se de um fato por todos conhecidos e, julgando que não houvesse na cidade quem não soubesse dar-lhes as necessárias informações sobre o Rei dos Judeus recém-nascido, confiadamente entraram em Jerusalém e perguntaram: “Onde está o Rei dos Judeus, que acaba de nascer? Vimos sua estrela no Oriente, e viemos adorá-lo”. (Mt. 2, 2). Se grande foi o desaponto por não mais ver a estrela, sua fiel companheira, maior foi a decepção que experimentaram, ao notarem o espanto que essa pergunta causou às pessoas a quem dirigiram.

A chegada de três príncipes estrangeiros à capital dos Judeus provocou grande alvoroço na cidade e na corte real. O rei Herodes perturbou-se sobremodo, não sabendo o que pensar da inesperada nova. No íntimo começou a recear pelo trono. Reuniu os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo, para que lhe dissessem algo do lugar onde devia nascer o Cristo.
Os judeus conhecedores que eram das profecias, não duvidaram de que teria chegado o momento do Messias aparecer. Sabiam também o lugar onde, segundo o profeta Michéas, o Desejado das nações havia de nascer. A resposta dos sacerdotes não deixou nada a desejar, quanto à clareza, e era concisa nestes termos: Os sagrados livros dizem: Em Belém, terra de Judá, há de nascer o Cristo; pois está escrito pelo profeta: “Tu, Belém na terra de Judá, não és por certo a menor, entre as cidades principais da Judéia; pois é de ti que há de sair o chefe, que deve governar Israel, meu povo”. Tendo Herodes ouvido a resposta dos entendidos, mandou vir secretamente os magos, e indagou o tempo exato em que lhes tinha aparecido a estrela.
Depois, mandando-os a Belém, disse-lhes: “Ide, informai-vos do Menino com cuidado, e logo que encontrardes, vinde dizer-me a fim de que eu também o vá adorar”. Não era, porém, esta a sua intenção. Falso que era, fingiu grande devoção e interesse de conhecer o Messias, e figurar entre os primeiros adoradores, quando sua intenção verdadeira era apoderar-se da criança e matá-la. Os Magos, cheios de alegria, por ter obtido informações tão claras partiram. A estrela que tinham visto no Oriente, caminhava diante deles e quando chegou em cima do lugar onde estava o Menino, parou. Por inspiração divina sabiam, que se achavam na presença d’Aquele que, nascido na pobreza, era o Rei do Universo.

Entraram na casa, e aí acharam o Menino, com Maria, sua Mãe. Tomados de profundo respeito, prostraram-se por terra e adoraram ao menino, como Deus e Salvador do mundo. Em seguida abriram os tesouros e ofereceram ao divino Infante ouro, incenso e mirra. Cumprindo-se a profecia do rei Davi, que diz: “Reis de Tharsis e das ilhas virão oferecer-lhe presentes; os reis da Arábia e de Sabá trarão oferendas”. (S. 71, 10). Sobre o tempo que os Magos permaneceram em Belém, os Santos Livros nada dizem. Nada sabemos o que entre eles e José e Maria se passou. É, porém, provável, que se tenham demorado na cidade de Davi e que José e Maria lhes tenham referido tudo que se passara nos últimos dias, antes de sua chegada do Oriente. Tratando da volta, quiseram, como a Herodes tinham prometido, passar por Jerusalém. Um Anjo, porém, apareceu-lhes dando-lhes a ordem expressa, que tal não fizessem. Obedientes a este celeste aviso, voltaram por caminho diferente para sua terra.

É fora de dúvida que os Magos tenham comunicado aos súditos o aparecimento do Salvador e com eles se tenham convertido à religião, de que se confessaram fiéis discípulos até o fim da vida. Um autor antiqüíssimo, na explicação que faz do Evangelho de São Mateus, diz que o Apóstolo Tomé os batizou na Pérsia e com eles milhares de súditos. Uma tradição existe, segundo a qual as relíquias dos Magos foram transportadas para Constantinopla, e de lá passaram para Milão, de onde, no século 12, o Imperador Frederico Barboroxa as transladou para Colônia, em cuja majestosa Catedral são até hoje veneradas.

Os três Magos são, com toda razão, chamados as primícias da nossa fé, e sua festa é digna de ser celebrada com a maior solenidade, em sinal de alegria, por Deus ter chamado também os pagãos, ao conhecimento da religião de seu filho Unigênito. “É um benefício imenso, que Deus me fez, ter-me chamado à existência num tempo e numa terra, onde reina a verdadeira religião”, diz Santo Agostinho. “Milhares e milhares de homens vejo, que não tem esta felicidade. Quantos milhões são ainda pagãos?” – Agradece de todo coração a Deus a graça de tua vocação cristã e procura tornar-se cada vez mais digno da mesma.
Fonte: paginaoriente.com

sábado, 19 de março de 2011

Reflexão do 2º Domingo da Quaresma - Mt 17,1-9

Viver é ser chamado por Deus e entregar-se à sua Palavra. No Primeiro Testamento, Abraão é o exemplo disso. Tem de deixar toda segurança e confiar-se cegamente à promessa de Deus. No Novo Testamento, Jesus é a plenitude dessa atitude.
Antes de iniciar seu caminho rumo a Jerusalém, Jesus encontra Deus na oração, na montanha. Aí, Deus o confirma na sua vocação. E, ao mesmo tempo, dá aos discípulos segurança para que sigam Jesus. Mostra- lhes Jesus transfigurado pela glória e proclama que esse seu Filho é o portador do seu bem- querer, do seu projeto. À luz da 2ª. leitura descobrimos também que nossa vocação não é um peso mas uma graça de Deus, uma caminhada com Jesus. Portanto, não nos deve assustar.
A prática cristã exige conversão permanente para largarmos as falsas seguranças que a sociedade consumista e as ideologias do proveito próprio e do egoísmo generalizado nos prometem, para arriscar uma nova caminhada, unida a Cristo e junto com os irmãos.
Somos convidados a dar ouvidos ao Filho de Deus, (como diz o evangelho: escutai-o) e a receber de Cristo nossa vocação para caminhar atrás dele - até a glória, … mas passando pela cruz. Assim, como Abraão escutou a voz de Deus e saiu de sua cidade em busca da terra que Deus lhe prometeu, devemos também nós largar o que nos prende, para seguir o chamado do Senhor.
Isso é impossível sem renúncia (termo difícil em tempos de consumismo!). Renúncia não é algo negativo, mas positivo: é a liberdade que nos permite escolher um bem maior. Isso vale para ricos e pobres. De fato, os pobres devem descobrir a renúncia libertadora. Não privação, mas renúncia. O povo precisa renunciar ao medo, ao individualismo, ao egoísmo e outros vícios que aprisionam a pessoa no seu mundinho particular. Então poderá assumir sua vocação. E os ricos e poderosos, se quiserem ser discípulos do Cristo, terão de considerar aquilo que possuem como meio e não como fim, não como dominação e prepotência, mas como disposição maior para ser-vir e partilhar, colocando-se à disposição - de coração aberto - da construção de uma sociedade mais justa e mais fraterna.
“Este é meu Filho amado, escutai-o”. Nunca, como hoje, foi tão difícil escutar o outro. Somos envolvidos e movidos por tanto barulho, que só sabemos fazer barulho. Não sabemos fazer silêncio (desaprendemos!). Queremos falar, falar, falar. E quando se fala não se consegue ouvir o outro. Vivemos correndo, sempre correndo atrás não sei do quê. E correndo, não dá para fazer silêncio. E correndo e sem fazer silêncio, não dá para ouvir o outro. Parece que só nós temos a verdade, por isso só nós queremos falar, falar; não deixamos os outros falarem e muito menos os escutamos. Nossos relacionamentos de fraternidade, de amizade vão tão mal porque não sabemos parar e escutar.
Escutar é uma arte. Quantas vezes, as pessoas estão falando e nós, nem bem as ouvimos, já queremos responder. Responder o quê, se nem bem as ouvimos. Estamos mais preocupados com nossos argumentos para convencer as pessoas do que escutá-las para saber o que pensam e o que estão dizendo .

Quaresma está aí para isso: para fazer-nos parar – olhar para o Pai - olhar para Jesus Cristo - e ouvir … ouvir o Espírito … ouvir Jesus… ouvir o Pai… Mais do que nunca agora é tempo da Palavra de Deus. Precisamos “arrumar tempo” para ouvir o que Deus tem a nos dizer. Precisamos fazer silêncio ao nosso derredor e no nosso interior para poder ouvir Deus (Deus fala baixinho e devagar!). Precisamos esvaziar o coração de tantas preocupações inúteis para poder “ter espaço e tempo” de ouvir Deus. Dizemos que amamos a Deus… e não temos tempo nem disposição de ouví-lo.
Dizemos muitas vezes que Deus não nos fala, que não conseguimos ouvir a Deus… Jesus nos ensina: precisamos subir à montanha - deixando aqui embaixo todas as nossa preocupações - para estarmos a sós e encontrarmo-nos com o Pai. Lá teremos tempo para ouvir o Pai, para entender a mensagem e o projeto que Jesus veio trazer, e sentir o Espírito que restaura, renova e potencializa nossa vida. Só na montanha é possível estar com Deus e senti-lo plenamente e desfrutar da sua presença.
Mais do que nunca nesta quaresma a Palavra de Deus deve estar, não na nossa mesa ou na nossa estante, mas no nosso coração. Parar o tempo, abrir o livro da Palavra de Deus … ler … e deixar a Palavra entrar na alma … Aí sim, sentiremos a brisa do Espírito do Deus que ventila a nossa vida e a renova.
Este é o meu Filho querido, escutai-o! Sim, Pai, abrimos nosso coração para ouvir e deixar-nos penetrar pela mensagem, pela Palavra do seu Filho Jesus. Amém.
Fonte: celebrando.org.br

sábado, 5 de março de 2011

Reflexão do 9º Domingo Comum - Mt 7, 21 – 27

Quantas vezes, numa celebração eucarística, chamamos Jesus de “Senhor”? Quantas vezes se fala de bênção, de fé, de Deus? No entanto, tudo isso pode ser vazio diante daquele que nos conhece por dentro. Diante daquele que vê o nosso interior, o nosso coração. Daquele que vê as nossas intenções verdadeiras!
Eucaristia é o lugar onde celebramos a vida, onde aprofundamos o verdadeiro sentido da nossa vida, onde nos abrimos para renová-la: deixar de lado o que não contribui para o bem e comprometer-nos com o caminho novo (… embora insistimos em seguir sempre o caminho velho! ).
Como estamos construindo a nossa vida? Onde a estamos alicerçando? No dia do encontro com o Senhor – o dia do Senhor e o nosso dia - poderemos abrir os braços – e o coração – e dizer bem feliz: “Vem, Senhor Jesus!, pois teremos a plena certeza de não só termos “repetido e clamado Senhor, Senhor”, mas vivido a mensa-gem desse Jesus Salvador que nos salvará integralmente.
Bênção ou maldição são conseqüências de nossas escolhas e de nossos atos. Não é uma loucura certas escolhas que fazemos e certas ações que praticamos? Que frutos, que resultados delas esperamos? Dizemo-nos tão inteligentes e às vezes, escolhemos tão mal. E nem nos importamos com as conseqüências, como se elas não viessem ou não existissem. Queremos e insistimos em querer ir contra a natureza: plantamos espinhos e cardos e queremos colher uvas doces e melífluas. Isso é de uma insensatez sem tamanho! E fazemos questão de nos enquadrarmos no século dos maiores progressos jamais alcançados pela humanidade! (…não sei, mas será que Jesus não diria: ai de vós, hipócritas … e não sei mais o quê!)
Seja feita a vossa vontade. Acho que rezamos assim: seja feita a minha vontade. A vontade do Pai dá muito trabalho, é muito exigente, contraria as minhas pretensões. A vontade do Pai é o Reino de Deus para todos. Isso implica justiça, fraternidade, partilha, gratuidade, solidariedade, preocupação com os outros, esquecer-se de si, não pensar só em acumular para não passar necessidade depois, desgastar-se para que o outro seja feliz, dar a vida pelo outro (… Isso é demais! - Assim não dá para encarar!).
Os antigos israelitas sabiam que a observância da Lei servia para o bem da pessoa, mas interpretavam a vantagem de observá-la num sentido de prosperidade material, longevidade e numerosa descendência. Jesus vem dizer que seguir suas palavras não dá vantagens materiais, mas o Reino de Deus.
Entre nós há os que dizem “Senhor, Senhor” e mostram sua adesão em efusivas palavras piedosas, mas na prática não tem uma vida condizente com o espírito de Cristo: estes não tem chances naquele dia do encontro. Seria melhor que dissessem não, mas que suas ações fossem “sim”. Escutar e pôr em prática…
Por que as palavras de Cristo tem valor de critério definitivo? Porque ele é Deus? Sim. Mas também por dedução prática. Comece a viver conforme o espírito do Sermão da Montanha, ama teus inimigos, dá o dobro daquilo que te é pedido, guarda teu coração puro - … e você descobrirá e sentirá uma felicidade que vale para sempre e que não se desfaz com o tempo. Mas aí está a dificuldade
Mas aí está a dificuldade. Muitos gostariam de ter provas antes, de experimentar. O difícil é que é preciso praticar antes para depois ver o resultado… mas talvez valha a pena dar um voto de crédito a quem deu o sangue para provar que era verdadeiro!

Talvez sirva o exemplo do filho que não gosta de verduras, mas as come porque há alguém que o ama por perto. O conhecimento do valor da palavra de Deus, o conhecimento de Deus mesmo como sendo minha eternidade, só conseguirei pela prática das suas palavras. A questão é escutar e fazer. Não é ver para crer. É fazer para ver (que é verdade e dá certo e é bom!).

Proclamar nossa fé é dar crédito a Deus, não somente em palavras mas em atos e fatos. Nossa verdade não está em nossas fórmulas intelectuais, mas em nosso agir. Fé é agir conforme o espírito de Cristo superando nossa auto-suficiência, nossa temeridade de obrigar a Deus a retribuir-nos pelas nossas obras piedosas.

Parece que a mensagem de Paulo seja diferente, pois diz que somos justificados pela fé e não pelas obras da Lei. Mas não é verdade. Paulo se refere às obras da Lei, como obrigações e imposições externas sem nada a ver com o coração, a consciência, a alma. Obras que não são feitas dentro da vontade de Deus; vontade que, antes de tudo, quer que a gente se converta e confie a Jesus Cristo. Obras que são simplesmente cumprimentos exteriores e vazios de conteúdo. Cumprir por cumprir. Ou cumprir para levar vantagem material.

Paulo diz que as obras não “justificam” ninguém diante de Deus. Mas ele não fala da prática da caridade, mas de outra coisa: da observância da lei judaica, que alguns convertidos queriam que todo mundo praticasse para ser justo. Mas se assim fosse, por que Cristo morreu?, pergunta Paulo. Só aderindo a Jesus na fé é que correspondemos ao que Deus espera de nós, e então vamos pôr em prática, não as obras da lei judaica, mas o amor fraterno que Cristo ensinou (como diz Paulo em Gl 5,6).

Confiar-se a Jesus Cristo, que morreu por nós, como o justo que derramou seu sangue pelos injustos - pura graça “gratuita” de Deus. Na fé nele somos feitos justos também. As nossas ações devem ser a consequência da fé, da confiança em Jesus Cristo, que invade o nosso coração e o transforma, quando descobrimos nele o grande amor que Deus nos tem. Um pouco como a criança que se decide a comer jiló quando percebe o quanto sua mãe a ama. Descobre um amor que merece crédito e, por isso, age conforme o desejo de quem assim ama.

Os que se dizem “cristãos praticantes” realmente praticam o que Deus espera deles? Deus não se satisfaz com vazias declarações de amor. Ele queria que os israelitas tivessem diante dos olhos e – no coração – a sua lei e a cumprissem com empenho. Não bastava ter a lei pendurada na testa, nas mãos, nas fimbrias dos mantos … eram simples sinais exteriores e vazios. Por isso, Jesus vai dizer claro e em alto e bom som: é preciso escutar a Palavra e a pôr em prática. Vale lembrar a parábola da semente…

Muitos querem ser cristãos de modo festivo e sentimental sem tirar as conclusões práticas das palavras de Jesus. Levantam as mãos na missa, mas não as abrem para seus irmãos pobres, nem abrem mão de seus privilégios de classe, que contrariam a justiça social. Dão esmola, mas exploram seus empregados. Mimam seus filhos em vez de os educar para a justiça do Reino. Isso é construir sobre a areia.

Mas para praticar, precisa antes “ouvir”. E ouvir com atenção as palavras de Jesus. Se em muitos o “pôr em prática” deixa a desejar, não menos em outros o “ouvir” com atenção. São os que projetam seus próprios impulsos e interesses nas palavras de Cristo, os que escutam apenas suas próprias ambições e paixões, dando-lhes aparência cristã. Para seguir Jesus Cristo é preciso “ouvir com o coração” o que ele diz de fato. Para isso, é preciso parar, silenciar a alma e o coração, abrir a mente… colocar-se em oração (quando fores rezar… entra no teu quarto… fecha a porta… e ora ao teu Pai em segredo!). O evangelho nos alerta para “ouvir e pôr em prática”.

1 Sm 16,7b - Deus vê, não como o homem vê, porque o homem toma em consideração a aparência, mas o Senhor olha o coração.

2 Cor 3,3 - Sois uma carta de Cristo, escrita não em tábuas de pedra, mas nos corações.

Rm 8,35.37 - Quem nos separará do amor de Cristo? Tribulação…perseguição… angústia… fome…nudez… perigo… espada?… mas em tudo somos mais que vencedores, graças Àquele que nos amou.

Sl 61,10-11 - Todo homem a um sopro se assemelha, o filho do homem é mentira e ilusão; se subissem todos eles na balança, pesariam menos do que o vento: não confieis na opressão, na violência, nem vos gabeis de vossos roubos e enganos! E se crescerem vossas posses e riquezas, a elas não prendais o coração!

Fonte: celebrando.org.br

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Reflexão do 8º Domingo Comum - Mt 6, 24 – 34

Mamon é o deus do dinheiro, da cobiça. É rival irreconciliável do Deus verdadeiro. Por que? Porque o Deus verdadeiro é, por essência, doação, doador generoso, graça, dom gratuito, dádiva abundante. Não se coaduna com a cobiça que é idolatria (Cl 3,5). O cobiçoso não possui, mas é possuído por seus bens e suas ânsias (eles e elas o fazem escravo diuturnamente!).
O evangelho não vem pregar nem a desocupação nem a despreocupação, mas vem alertar que a “preocupação” é a que vem antes da ocupação e que ocupa toda a atenção, sentimentos, esforços, e esgota o indivíduo. O evangelho convida a ocupar-nos do Reino e da sua justiça. Até porque quem vive preocupado não faz nada de concreto (somente ocupa espaço no mundo e cria problemas). Reino de Deus e sua justiça é buscar todo o bem que Deus quer para sua gente e para a criação.
Comer e beber são ocupações tão naturais que a gente nem precisaria se preocupar com elas. Não deveria trazer-nos preocupações, pois cada dia já tem os seus problemas. Acontece, porém, que alguns (justamente porque fazem dessas coisas a sua única preocupação), distorcem tudo em detrimento do bem-estar de todos …

Daí vem a necessidade de se agarrar ao Reino de Deus e à sua justiça para recolocar o mundo nos trilhos originais.

Buscar o Reino não é ter uma mentalidade de ‘sombra e água fresca’. Aliás, o ‘sombra e água fresca’ não se preocupa nem consigo nem com os outros necessitados ao seu lado. Não quer nada com nada. O seguidor de Jesus é justamente aquele que coloca os dons da criação à disposição de todos, aquele que ensina e ajuda a partilhar tudo com todos. Partilhando, todos tem e ninguém passa necessidade. Isso é procurar em primeiro lugar o que Deus deseja.

Para se chegar a essa atitude de “imprudente” doação é preciso ter muita (muita mesmo!) fé e confiança em Deus. Daquela que o profeta fala: “uma mãe pode esquecer seu filho, mas o Deus que nos criou, nunca!

Essa confiança não é mágica nem leviana. Essa confiança não dispensa a colaboração inteligente, não dispensa a responsabilidade e o esforço de fazer a multiplicação das coisas criadas de sorte que todos possam dela participar e par-tilhar. Não há que escolher entre a tecnologia e a divina Providência. Há que se colocar a tecnologia a serviço do homem e da fraternidade. É dever de justiça colocar os dons de inteligência para melhorar o mundo em que vivemos.

O evangelho de hoje é um alerta para nossa sociedade. Jogar-nos nos braços de Deus com a certeza de que ele nos segurará, pois ele não desiste de cuidar de nós… de jeito nenhum. Ao convidar a olhar as aves do céu e os lírios do campo, Jesus nos chama a atenção para tomarmos consciência “do que dirige e move a nossa vida”. Estamos demais preocupados com tantas coisas que nem sabemos bem com o quê de fato estamos preocupados. Não parece um contra senso? Interessante! Vivemos tão preocupados que as preocupações nunca passam, nunca acabam. Por que será?

Veja se você concorda comigo? … É possível viver, com todo empenho e denodo, procurando riquezas, bens, propriedades, prestígio, poder, prazer, vida social … e … além de conseguir tudo isso,… ainda “ter Deus”?

Mas também você concorda que procurar primeiro o Reino de Deus e sua justiça para depois (… só depois?) esperar receber o resto, é muito difícil, é muito arriscado, ainda mais numa sociedade como a de hoje, em que vivemos, em que tudo é previsto e previsível. Não acha?

E este evangelho se opõe também aos despreocupados, que deixam tudo correr para não se incomodarem… e, por isso, se tornam cúmplices daqueles que querem tudo para si.

O certo é primeiro empenhar-se pelo serviço de Deus, da justiça e do amor que Jesus nos ensina. Então, sempre teremos a certeza de ter feito o que devíamos fazer. Se Deus nos concede uma vida longa e materialmente sucedida, para assim servi-lo, tudo bem. E se ele nos conduz ao sacrifício, não teremos nada a reclamar…

A confiança na providência é condição necessária à responsabilidade pela vida e ao engajamento para melhorar a criação e ajudá-la a partilhar. Quem sempre está calculando como salvará seus interesses próprios , nunca se engajará com liberdade evangélica na procura do Reino e da sua justiça. A confiança na Providência é libertadora e não alienante! Não tira nossa responsabilidade pelo mundo, mas nos dá maior liberdade e coragem para assumir nossa responsabilidade na construção do Reino. Quanto mais confiamos em Deus, mais cresce nossa responsabilidade. Como dizia Sto. Inácio de Loyola: “confiar em Deus como se tudo dependesse dele e empenhar-nos como se tudo dependesse de nós!”

Bens terrenos e confiança em Deus vivem em conflito. O evangelho condena o afã excessivo de segurança e a falta de confiança em Deus, coisas típicas de mentalidade pagã. Ben Sirac já denunciava essa “preocupação que acaba com a saúde” (Eclo 31,1-2). Recomenda concentrar nos valores do Reino e na confiança ilimitada no Deus, que é Criador e Pai. É claro que deve haver uma previsão econômica razoável, que contempla a responsabilidade pelos bens da criação juntamente com a confiança no Pai celestial. Quando se compõem Reino de Deus e sua justiça acontece infalivelmente uma ordem justa, harmônica, solidária, pacífica entre os homens … entre aqueles que se dizem filhos do criador e pai dos céus.

O texto não ensina a despreocupar-nos, mas a mudar o objeto da preocupação. De fato, ao buscar o Reino de Deus, o ser humano segue um modo de vida tranqüilo e simples, em bem-estar.

Interessante relembrar aqui a resposta do Dalai Lama sobre o que mais o surpreendia na humanidade. “O que mais me surpreende é o homem, pois perde a saúde para juntar dinheiro… e depois, perde o dinheiro para recuperar a saúde… Vive pensando no futuro: e assim não consegue viver nem o presente nem o futuro. Vive como se nunca fosse morrer… e morre como se nunca tivesse vivido!”.

Fonte: celebrando.org.br

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Reflexão do 7º Domingo Comum - Mt 5, 38 – 48

A primeira leitura destaca o mandamento “amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19,17-18). Para Israel, somente é possível amar a Deus se há amor ao próximo. Mas ao longo da história, houve uma tendência de interpretar esse mandamento em sentido restrito, reservando a prática do amor apenas para o compatriota. Com sua vinda Jesus restaura o mandamento original para a sua amplitude universal.

O mundo julga ser loucura retribuir o ódio com o amor, o mal com o bem, as ofensas com o perdão. Mas Paulo, na 2ª. leitura, vai proclamar em alto e bom som que os cristãos não devem se preocupar quando o mundo os julga loucos, porque afinal “a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus” (1Cor 3,19).

O amor a Deus se reflete no amor ao próximo. Nisso consiste a vida cristã configurada a Cristo. Uma vez que o Pai ama a cada ser humano indistintamente, a vocação cristã consiste em amar o próximo não como a si mesmo, mas como Cristo o amou. Somente pelo amor as divisões são superadas, a violência extinta, a fraternidade instaurada. E, com isso, a santidade de Deus será comunicada a todos os povos.

Com o Sermão da Montanha Jesus supera a lei do talião (do “tal qual”), “olho por olho”, “dente por dente”: instaura a “nova” justiça do Reino. A posição de Jesus é tão coerente e compreensível que visa superar o mal, pois pagando o mal com o mal, nunca se sai do “status quo”, do círculo vicioso da vingança, da violência. Mas para Jesus o cerne se encontra no amor do Pai: amai-vos gratuitamente como o Pai vos amou. Não é retribuição, é ação de ir ao encontro para manifestar e expressar o amor.

Mas como isso é possível: amar até os inimigos? Jesus não está preocupado se é possível ou não, simplesmente diz que deve ser assim, pois Deus é assim. Deus faz surgir o sol sobre bons e maus e a chuva descer sobre justos e injustos. Pois todos são seus filhos. Alguém como sempre retrucará: mas eu não sou Deus! E a resposta clara de Jesus: “não és Deus, mas procura ser perfeito como ele, perfeito como teu Pai celeste é perfeito; então, serás realmente seu filho!” (só para lembrar: parece que o filho deve ter as feições do pai! Ou não?).

Jesus não veio facilitar a nossa vida. Veio para nos tornar semelhantes ao Pai, mesmo sabendo que sempre ficaremos devendo alguma coisa e que por própria força nunca chegaremos a isso. Também não é uma questão de esforço, mas de amor e de graça. É preciso estar aberto à graça. Uma vez conscientes de que Deus nos ama de graça (Rm 5,6-8 e 1Jo 4,10.19), já não vamos achar estranho amar de graça os que não nos amam. Quando entendermos bem e profundamente o amor gratuito (embora não sei se existe amor que não seja gratuito!) não vamos achar estranho convidar os que não nos podem retribuir (cf.Lc 14,12ss).

O amor de Deus é sempre criador: Cria uma situação nova, que não existia antes (e sempre uma situação de bem-estar, de paz, de felicidade). Sabendo e tomando consciência de que estamos envolvidos nesse amor paterno - criador e gratuito - seremos capazes de imitá-lo um pouco. Seremos, não por nosso esforço, mas por saber–nos amados, realmente os seus filhos. E almejaremos o dia em que a morte porá fim às nossas incoerências, para que Ele nos acolha plena e definitivamente.

Já no Primeiro Testamento encontramos os mandamentos de não guardar rancor e do amor ao próximo (Lv 19,17-18.35). Todos esses mandamentos se baseiam na mesma verdade: todas as pessoas são filhos do mesmo Pai.

A liturgia de hoje supõe que estejamos imbuídos da consciência filial com relação a Deus. “Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e não te esqueças de nenhum dos seus benefícios” (salmo responsorial 102).

Paulo, falando da sabedoria do mundo como geradora de vanglória, partidarismos e outras atitudes demasiadamente humanas, proclama a sabedoria da cruz de Jesus Cristo. Os critérios humanos são loucura diante de Deus. Paulo ironizou os coríntios: eu sou de Paulo, de Apolo, de Cefas … E hoje? Talvez não teria que ironizar também adeptos fanáticos de movimentos, tradições, teologias? É preciso não perder de vista: “todos nós, apóstolos, somos vossos; e não só nós, mas toda a rea-lidade da criação é vossa … mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus” (1Cor 3,21-23).

“Sede santos, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo!” … “Sede perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito!” … “Acaso não sabeis que sois santuários de Deus e o Espírito de Deus mora em vós?” Manter a semelhança com Deus é manter a perfeição, ou seja, a santidade. Ser santo ou perfeito significa guardar a Palavra de Deus e levar uma vida em tal conformidade com o evangelho, que ela seja reconhecida como cumprimento da vontade de Deus. “Vós sois de Cristo e Cristo é de Deus!” Assim resume Paulo sintetizando que na pertença ao Senhor consiste a santidade e a perfeição.
Fonte: celebrando.org.br

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Reflexão do 6º Domingo Comum - Mt 5, 20-22a . 27-28 . 33-34a . 37

Não basta observar leis para ser justo; é preciso observá-las com o coração, consciente daquilo que se está fazendo, a fim de realizar o bem que a lei visa. Isso se chama agir conforme o espírito da lei. Observar as leis de Deus conforme o espírito de Deus. A letra da lei mata, o Espírito vivifica.

Os antigos israelitas veneravam a Lei como uma encarnação da sabedoria e do Espírito de Deus. O salmo responsorial de hoje 119(118) é um bom exemplo. A Lei era uma luz, um caminho, uma razão de orgulho perante os outros povos (cf. Dt 4,7-8). “Feliz o homem … que na lei do Senhor vai progredindo! Feliz o homem que observa seus preceitos e de todo coração procura a Deus!… Ensinai-me a viver vossos preceitos. Quero guardá-los até o fim! Dai-me o saber e cumprirei vossa lei de todo coração a guardarei!”

Mas pode-se observar a lei com outro espírito. Havia quem observasse com espírito de barganha: “vamos fazer exatamente o que está escrito, nem mais nem menos; então, seremos justos e Deus nos deverá conceder o paraíso!” Certos escribas e fariseus faziam da Lei instrumento de dominação (Mt 23,2-4). Jesus quer tirar a Lei das mãos dessa gente e devolvê-la às mãos de Deus, para voltar a ser expressão da vontade de Deus, de seu amor, de sua fidelidade (1ª. leitura).

Jesus não era contra a lei. Era contra a interpretação que se dava à Lei. Com o termo “ouvistes” Jesus contrapõe seu ensinamento ao dos escribas e fariseus. A novidade de Jesus está na explicitação da intenção de Deus ao dar os mandamen-tos. Por exemplo, não basta ‘não matar’. Há que evitar palavras de desamor, de desprezo, de ressentimento contra o próximo. Era essa a intenção de Deus e é esse o espírito da lei que permanece. Jesus quer restabelecer a lei na sua pureza original (=da fonte divina). Não quer abolir, mas levá-la à perfeição: não o legalismo farisaico, mas o Espírito de Deus (Mt 5,17-20).

Restituir a lei a Deus, devolver a lei a Deus significa uma profunda conversão da nossa “justiça” (cf.Mt 5,20). Significa que, enquanto nossa justiça vier de nós mesmos, nunca será suficiente para observar a Lei. Pois segundo o espírito e a intenção do legislador (Deus), ninguém jamais conseguirá realizar tudo o que Deus quis sugerir com a lei.

“Não matarás”, cita Jesus, mas também não sufocarás o próximo por desprezo, rixa, vingança. “Não adulterarás” (5,27), mas também não alimentarás cobiça por mulher alheia no teu coração. O divórcio (mais exatamente o repudio da esposa) entrou na lei de Moisés, mas não era da intenção de Deus (cf. Mt 19,1ss). Conforme o espírito de Deus não deve haver divórcio; mesmo se for julgado um mal menor … nunca será um bem! “Jurar” é - e sempre será - uma aberração, pois Deus quer que sempre se diga a verdade: então, por que jurar? (Mt 5,33-37).

Com sua radicalidade de interpretação da Lei, Jesus derruba toda auto-suficiência. Diante de Deus ninguém é “sem pecado” (Sl 129,3). Mas isso não nos dispensa de fazer o melhor. Os fariseus reduziam a lei a moldes humanos e estreitos. Jesus mostra a dimensão infinita e inesgotável da vontade de Deus, da qual os mandamentos são uma fraca demonstração. Nunca estaremos “quites” com Deus; sempre estaremos devendo-lhe alguma (ou muitas) coisa. Mas fazendo tudo aquilo de que somos capazes, fazendo com consciência e em verdade, podemos contar com sua graça, pois ele é nosso Pai.

A sabedoria do Primeiro Testamento ensina que temos uma consciência para escolher entre o bem e o mal. Para ajudar-nos a escolher, Deus nos propõe a lei, os mandamentos. São sinais da vontade, da expectativa, do desígnio, do espírito do Pai. É preciso aprender a escutar Deus nos sinais da letra dos mandamentos É o que Deus deseja, é o seu projeto, é o seu plano de amor, é a busca da verdadeira justiça do evangelho.

Jesus restituiu a Lei a Deus: tirou-a das mãos dos fundamentalistas e a fez ser novamente interpretação e instrumento do amor do Pai. E com isso, restituiu-a ao povo, pois assim ela serve para a paz, a felicidade profunda do povo que Deus ama. A nós cabe interpretar a lei pelo amor que Cristo nos fez conhece: a lei a serviço de um amor inesgotável. Então, nunca estaremos plenamente satisfeitos, pois sempre descobriremos uma maneira nova e melhor de realizar o bem que Deus nos aponta pela lei.

E ainda. Por mais completos que formos no cumprimento dos mandamentos, sempre haverá um espaço (enorme) para que a gratuidade e a misericórdia de Deus se manifestem. A Lei não esgota o mistério de Deus e seus desígnios para quem ele ama e que busca corresponder a esse amor.

Paulo abre uma perspectiva interessante do que é fundamental na vida: a busca sincera e a vivência do amor na corresponsabilidade de uns com os outros, sempre em busca do bem, da felicidade e da plena realização do ser humano, filho de Deus. Há coisas que “os olhos não viram, os ouvidos não ouviram e o coração do homem não percebeu. Isso Deus preparou para aqueles que o amam”.

Nossa celebração de hoje inquire-nos: “deixa tua oferenda diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão”(v.23-24). É a grande descoberta da estreita relação que existe entre o culto prestado a Deus na vida e o culto prestado na ce-lebração: a vida é expressão da celebração e a celebração é expressão da vida. Celebramos o que vivemos e vivemos o que celebramos! É preciso harmonizar vida com celebração, de tal forma que uma coisa ilumine a outra. Gestos, símbolos, ritos, preces e orações tornam-se opacos se não transparecem uma vida que os convalida. Celebrar todos os domingos na Igreja significa viver todos os dias segundo o Evangelho de Jesus Cristo morto e ressuscitado.

Paulo fala de Jesus Cristo crucificado, sabedoria de Deus, misteriosa e oculta. Na fragilidade de sua vida humana totalmente ofertada ao Pai, como dom de amor, Jesus desvenda aquilo que Deus “preparou desde toda a eternidade” para os seres humanos: o amor ao extremo.

A proposta de Jesus é exigente, porque mira o interior do ser humano, no qual foi escrita a vontade de Deus, a consciência. Deus não quer escravos, mas filhos livres. Calha bem a frase de Santo Agostinho: “ama e faze o que quiseres” porque traduz muito bem o maior mandamento: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo” (Mt 22,37-39).
Fonte: celebrando.org.br

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Reflexão do 5º Domingo Comum - Mt5, 13 - 16

Para construir um mundo novo, para ser sal e luz neste mundo, é necessário que os cristãos sejam realmente pobres em espírito, mansos, misericordiosos, puros, pacíficos e alegres apesar das perseguições. Só assim conseguirão transformar o mundo insípido (sem sal), insensato (sem a sabedoria divina) e sombrio (sem a luz de Deus) em Reino de Deus, no qual esses valores tenham a primazia. Contudo, há também o reverso da medalha: de cristãos sem o espírito do evangelho, das bem-aventuranças nada pode o mundo esperar.
Nossa missão é aqui e agora, é nesse mundo com todos os seus avanços e retrocessos, altos e baixos, acertos e erros. Como ser sal da terra se nos fechar-mos em nosso mundinho particular. Como vamos transformar esse mundo em algo de bom, saboroso, bonito, iluminado se continuarmos a nos alienar dele, sem nos importar com sua degradação e com seu caminhar para a perdição?… a corrupção?… a degradação? Onde está o sal a dar-lhe novo sabor (=novos valores)? Onde está a luz a iluminar a estrada, para indicar onde estão os buracos traiçoeiros?
Estamos no mundo, fomos colocados neste mundo. Não podemos fugir dele. Nele fazemos e construímos nossa história. Devemos ter bem claro em nós: devemos estar no mundo sem ser do mundo. Envolvidos (queiramos ou não) com este mundo compete-nos cuidar dele para que seja cada vez melhor. O sal, como o fermento que não se mistura com a comida ou com a massa, não serve para nada, pois não tempera (=dá sabor) e não leveda a massa. A luz, que, por sua vez, não ilumina e não mostra o caminho para nada serve. Luz que é luz serve para identificar coi-sas, plantas, animais, pessoas dando-lhes identidade. Serve para revelar cores e beleza de tudo o que existe, além do que aquece e aconchega. Revela-nos as pessoas e a natureza.

Ser sal e luz. Envolver as realidades, o mundo e as pessoas em sabores novos e luzes novas (sabor do Cristo e luz do evangelho): essa é a missão do cristão. Essa é a evangelização que se traduz em gestos concretos de serviço, diálogo, anúncio e testemunho.
Nossa celebração e encontro semanal servem justamente para incorporar o sal e a luz do Cristo na nossa vida de cristão para levá-los ao mundo. Pensemos!
Será que nossa celebração dominical atinge esse objetivo ou não passa de uma série de ritos (sem conteúdo) que não conseguem renovar-nos interiormente? Não vivemos de um ritualismo muito bonito mas vazio?
O sal serve para conservar e dar sabor aos alimentos. A luz (reflexo da divindade, e criada por Deus – Gn 1,3) dá nitidez, revela os contornos, revela os olhos, revela o rosto, revela a pessoa. A luz acaba com as trevas, com a escuridão, com o indefinido, com as máscaras, com os fantasmas e revela a grandiosidade da realidade da natureza.
Quem segue o Cristo com autenticidade torna-se portador de sua luz, pois deixa transparecer na própria conduta a vida e a mensagem de Jesus e atrai todos para Deus. Brilhe a vossa luz diante dos homens, para que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem vosso Pai que está nos céus”.
Não basta que cada um se preserve do mal, da corrupção, do pecado. É necessário preservar também o mundo, pois toda a criação é chamada a se renovar em Cristo (mundo novo, nova Jerusalém). Sem união com Cristo, a vida do cristão se torna sem sal, sem gosto, sem valor e não serve para nada. Só Cristo dá valor e sentido à vida. “Quem me segue, não anda nas trevas, mas terá a luz da vida!”
Fonte: celebrando.org.br

sábado, 29 de janeiro de 2011

Reflexão do 4º Domingo Comum - Mt 5, 1 – 12a

Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos céus!
As bem-aventuranças marcam em Mateus o início do sermão da montanha (5,1-7,28), a nova constituição do povo de Deus. Fazem parte do discurso do 1º. Livrinho(3-7). Esse discurso pode ser resumido assim: “o Reino é a justiça que liberta”
Quem são os destinatários? São as multidões vindas da Galileia, Decápole, Jerusalém, Judéia e do outro lado do Jordão (cf. 4,25). Com gente de todos os lugares se demonstra que a mensagem de Jesus não tem fronteiras.

Ao ver a multidão, Jesus sobe à montanha. Montanha é simbolicamente o lugar de Deus. Montanha quer recordar também o Monte Sião da Aliança selada com o povo hebreu ao sair da escravidão do Egito.
Jesus promulga a nova constituição do novo povo de Deus. Inaugura uma Aliança de confiança ilimitada entre Deus e seu povo. No Sinai o povo devia permanecer afastado. Agora o povo pode se aproximar do Mestre na montada e Deus lhes fala em Jesus, que, sentado, ensina como Mestre qualificado.
As bem-aventuranças são propostas de felicidade. A nova constituição do povo de Deus não impõe leis. Ao ver aquela imensa multidão de pessoas, Jesus simplesmente:
-constata a situação do povo que o segue (pobres, aflitos, mansos, famintos);
-percebe o esforço que fazem para mudar a situação (misericórdia/solidariedade, pureza de coração, promoção da paz);
-conhece as dificuldades e perseguições que enfrentam para criar a nova sociedade;
-e os proclama felizes, depositários do projeto de Deus.
A nova constituição = Deus se solidarizou com o povo sofrido, confiando-lhes o Reino.

Mais do que cultivar essa ou aquela virtude, a celebração de hoje nos propõe um compromisso alegre e decidido com a construção do Reino de Deus. O primeiro passo é o acolhimento em nós dessa boa notícia, apropriando-nos dela. Fazer nos-so o “sonho” de Deus: um mundo novo de justiça e paz.

Para isso precisamos fazer-nos pobres no sentido das bem-aventuranças, pobres de Deus, pobres do Reino. Daí vem os outros passos: lutar pela justiça, construir a paz, promover a dignidade humana. Para isso, precisamos nos solidarizar com os pobres desta terra. São eles os preferidos de Deus porque são a parcela mais fragilizada da sociedade. Ele conta com cada um de nós para que todos vivamos sempre felizes.
Vivamos nas bem-aventuranças. Vivamos as bem-aventuranças. Vivamos no Reino! Vivamos o Reino!
Fonte: celebrando.org.br